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Os 3.600 pontos por ano que o mercado não credita
R$ 1.500 de mercado por mês no cartão de 1 ponto por dólar credita 3.000 pontos ao ano, e o de 2,2 credita 6.600 pela mesma compra.
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O cartão que passa no caixa do mercado
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A maquineta do mercado pede o cartão às sete da noite de uma terça, com o carrinho cheio e três pessoas na fila atrás. O plástico que sai da carteira é o que estava na frente do porta-cartões.
A compra fecha em R$ 260. Ela entra na fatura no meio de outras trinta linhas e nunca mais é olhada sozinha.
No fechamento do mês, as compras de mercado somam R$ 1.500. Em doze meses são R$ 18.000, e o mercado costuma ser a segunda maior linha do orçamento de uma casa, atrás só do aluguel ou da parcela do imóvel.
A conversão para pontos passa pelo dólar. Com a moeda a R$ 6, os R$ 1.500 do mês viram US$ 250 na régua do programa, e US$ 3.000 ao longo do ano.
Um cartão que credita 1 ponto por dólar devolve 3.000 pontos por essa compra. Um que credita 2,2 devolve 6.600 pela mesma lista, no mesmo mercado, no mesmo horário.
A diferença é de 3.600 pontos por ano. Nenhum hábito mudou, nenhuma marca foi trocada, nenhum item saiu do carrinho.
Três mil e seiscentos pontos são 3,6 milheiros, e milheiro tem preço de venda. Escrito em reais, o número deixa de ser detalhe de programa e vira uma linha de orçamento como qualquer outra.
O plástico que fica na frente do porta-cartões raramente foi escolhido. Ele foi herdado do primeiro cartão aprovado, ou do banco onde o salário cai, e ficou ali por inércia enquanto o gasto do dia a dia inteiro passava por ele.
A escolha não se resolve olhando a taxa anunciada na página do banco. Acúmulo alto quase sempre vem colado a uma anuidade, e a anuidade é cobrada em dinheiro no primeiro mês, enquanto o ponto só vira dinheiro no resgate.
A seção a seguir faz a divisão que separa os dois plásticos e escreve, em reais, quanto vale cada ponto por dólar adicional nessa única linha do orçamento.
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I Ordem
A divisão que separa os dois plásticos
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R$ 1.500 de mercado por mês viram US$ 3.000 por ano na régua do programa, e cada ponto por dólar adicional vale exatamente 3.000 pontos anuais nessa única linha. A diferença entre 1 e 2,2 vale 3,6 milheiros.
A conta é curta e cabe numa linha. Divida o gasto anual em reais pelo dólar, multiplique pela taxa de acúmulo do cartão e você tem os pontos que aquela categoria gera no ano.
Dezoito mil reais divididos por R$ 6 dão US$ 3.000. A 1 ponto por dólar, são 3.000 pontos. A 2,2, são 6.600.
As cinco linhas do ano cabem numa lista:
| • Gasto de mercado por mês: R$ 1.500 | | • Gasto de mercado por ano: R$ 18.000 | | • Dólar usado pelo programa na conversão: R$ 6 | | • Pontos anuais a 1 ponto por dólar: 3.000 | | • Pontos anuais a 2,2 pontos por dólar: 6.600 |
A diferença de 3.600 pontos precisa virar reais para significar alguma coisa. Ponto não tem valor de face, e o preço do milheiro varia por um fator de dois dependendo da porta de saída.
Numa transferência com bônus de 100% e uma emissão bem escolhida, o milheiro sai perto de R$ 80. Três vírgula seis milheiros a R$ 80 são R$ 288 por ano, saindo só das compras de mercado.
Fora de campanha, o mesmo saldo vale perto de R$ 36 por milheiro. Os mesmos 3,6 milheiros devolvem R$ 129,60, e a decisão de qual cartão passar no caixa vale menos de onze reais por mês.
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Nada na vida é tão importante quanto você pensa que é, enquanto você está pensando nele.
Daniel Kahneman, Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar, 2011
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A frase de Kahneman explica por que a taxa de acúmulo parece decisiva enquanto você lê a página do banco e some assim que a fila do caixa aparece. O número que importa não é a taxa isolada, é a taxa multiplicada pelo gasto que realmente passa naquela categoria.
Um cartão de 2,2 pontos por dólar usado só para viagem, duas vezes ao ano, rende menos que um cartão de 1 ponto por dólar que carrega o mercado, a farmácia e o posto todo mês.
O gasto recorrente é o que dá escala à taxa. Mercado, farmácia, combustível e contas de casa somam de R$ 2.500 a R$ 4.000 por mês numa família de quatro pessoas, e essa base é que multiplica qualquer diferença de acúmulo.
O cartão certo no caixa é a decisão que se repete cem vezes por ano sem custo nenhum de execução.
Escrita a diferença bruta, falta descobrir quanto o banco cobra para entregá-la.
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II 1
O que a anuidade cobra pelos 1,2 ponto extra
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Os 3.600 pontos anuais custam a anuidade do cartão que os credita, e uma anuidade de R$ 1.188 exige que cada milheiro extra valha R$ 330 para o ano empatar.
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A primeira camada é a própria anuidade. O cartão de 2,2 pontos por dólar costuma cobrar entre R$ 99 e R$ 149 por mês, ou seja, de R$ 1.188 a R$ 1.788 por ano, contra zero do cartão básico do mesmo banco.
Mil cento e oitenta e oito reais divididos por 3,6 milheiros dão R$ 330 por milheiro. Nenhuma porta de saída de programa chega perto de R$ 330, e isso encerra o caso do cartão premium comprado só pelo mercado.
A conta vira quando o gasto recorrente inteiro entra no cálculo. Cada R$ 1.000 gastos no mês geram 200 pontos extras na diferença de 1,2 ponto por dólar, que a R$ 80 por milheiro valem R$ 16.
Para cobrir R$ 1.188 de anuidade a esse preço, é preciso passar perto de R$ 6.200 por mês no cartão. Abaixo disso, o plástico anual mais barato ganha por diferença de custo, não por diferença de pontos.
A segunda camada é a categoria bonificada. Muitos programas pagam a taxa cheia só em categorias específicas e jogam o mercado numa faixa reduzida, e o supermercado é justamente a categoria que mais aparece na lista de exceções.
A terceira camada é o teto mensal de pontuação. Um cartão que anuncia 2,2 pontos por dólar pode limitar o crédito a US$ 1.500 por mês, e o gasto acima desse teto volta para 1 ponto por dólar sem aviso na fatura.
As quatro portas de saída da diferença cabem em quatro linhas:
| • Diferença anual entre 1 e 2,2 pontos por dólar no mercado: 3.600 pontos | | • Valor a R$ 80 por milheiro, com campanha aberta: R$ 288 | | • Valor a R$ 36 por milheiro, fora de campanha: R$ 129,60 | | • Anuidade típica do cartão de 2,2 pontos por dólar: R$ 1.188 |
A quarta camada é o arredondamento por transação. Programas que arredondam para baixo a cada compra descontam centavos de dólar em cada passagem, e quem faz vinte compras pequenas por mês perde mais pontos que quem faz quatro compras grandes com o mesmo valor total.
Vinte compras de R$ 75 contra quatro compras de R$ 375 movimentam os mesmos R$ 1.500. No arredondamento por transação, a diferença chega a 2% do total pontuado no ano, o que come parte da vantagem que a taxa mais alta prometeu.
A quinta camada é a validade. Ponto que expira em 24 meses cria um prazo para a diferença virar passagem, e saldo acumulado devagar em categoria recorrente é o primeiro a bater no vencimento sem alcançar uma emissão.
Existe uma saída que não depende de nenhuma dessas camadas. O cartão de anuidade zero com 1 ponto por dólar e crédito imediato preserva os R$ 1.188 em dinheiro, e R$ 1.188 compram muito mais que 3,6 milheiros em qualquer mesa de negociação.
Com as cinco camadas medidas, falta transformar a comparação numa decisão de dois minutos antes da próxima ida ao mercado.
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